sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Um alerta ao presente

João e Bilu são os personagens do curta dirigido por Kátia Lund


Análise Estética do filme “Crianças Invisíveis”

Resumo
O objetivo do presente trabalho é analisar, sob o aspecto estético, dois episódios de um total de sete, de livre escolha, do filme Crianças Invisíveis (All the Invisible Children). A metodologia utilizada foi a da observação do filme como um todo, escolha dos episódios a serem analisados e posterior observação mais atenta das partes escolhidas. A esta observação somou-se uma pesquisa na Internet sobre o filme e o tema, e leitura de apostila e anotações colhidas em sala de aula. O resultado de tal análise deixa claro que a sociedade humana estará ameaçada, caso continue a mostrar o descaso no cuidado da própria existência física e moral das gerações que pretendem ser o futuro.
Palavras-chaves – Cultura, denúncia, estética.

300 milhões de crianças são excluídas do direito ao acesso à água limpa;
115 milhões de crianças são excluídas do direito à educação;
500 mil crianças nascem todos os anos e não têm acesso ao registro civil;
Cerca de 10 milhões de crianças e adolescentes vivem no semi-árido, em situação de pobreza;
Quase 3 milhões de crianças são exploradas no trabalho infantil.
(Dados do UNICEF)

"O que vemos na tela deve nos mover para alguma ação concreta".

Danny Glover, ator, embaixador do UNICEF.

"Essas não são crianças invisíveis no sentido estrito, porque estão presentes nas janelas dos nossos carros, mas são invisíveis porque, às vezes, preferimos vê-las, mas não enxergá-las".

Marie-Pierre Poirier, representante do UNICEF no Brasil.

"É um filme incômodo, que fala do nosso presente, do nosso cotidiano e daquilo que não vemos porque não queremos ver, já que está na nossa frente".

Verônica Aravena Cortes, professora de sociologia da Universidade Metodista de São Paulo.

Introdução

A análise de dois episódios do filme Crianças Invisíveis é um exercício para a compreensão de maneira mais aprofundada dos conceitos de estética e cultura de massa, analisando a visão de cada diretor cinematográfico, em comparação aos conceitos de estética desenvolvidos na era clássica, medieval e moderna.
O filme reúne sete episódios e conta a história de crianças em sete diferentes países e continentes: Brasil, África, China, Estados Unidos, Inglaterra, Itália e Sérvia-Montenegro.
O objetivo do filme é chamar a atenção de governos e da sociedade civil para a situação de crianças, em todo o mundo e em realidades específicas: crianças que trabalham, afetadas pelo vírus HIV, abandonadas por suas famílias, discriminadas por fatores raciais e étnicos e crianças obrigadas a conviverem e participarem das guerras. Cada diretor procurou, à sua maneira e sob seus conceitos culturais, retratar tal realidade.
O episódio "Tanza" mostra um grupo de meninos numa guerra em um país da África; crianças ciganas obrigadas a roubar pelo pai alcoólatra na Sérvia é o tema de "Ciganos"; "Crianças de Jesus na América" mostra uma adolescente americana e a descoberta de que é portadora do vírus HIV; o jeito de sobreviver de dois irmãos que andam pelas ruas de São Paulo, é retratado pelo episódio brasileiro "Bilu e João"; o drama existencial de um fotógrafo de guerra inglês que volta à infância é o tema de "Jonathan"; "Ciro" mostra a vida de um garoto que rouba para sobreviver na cidade de Nápoles, Itália, e a história de duas garotas chinesas, uma em seu mundo rico e outra na miséria é o tema central de “Song Song e a Gatinha”.
A escolha dos episódios “Bilu e João”, dirigido pela brasileira Kátia Lund e “Jonathan”, dirigido pelos ingleses Jordan Scott e Ridley Scott, levou em consideração a realidade, o tema, as diferenças de linguagens, mas, principalmente, a forma diversa com que os diretores tratam o tema: o primeiro de forma mais alegre, apesar de todos os problemas enfrentados pelas crianças, o segundo numa atmosfera filosófica, crise existencial e fantasia. Duas escolas cinematográficas bem distintas.

“Bilu e João”
Direção de Kátia Lund

Um casal de irmãos interpretados por Vera Fernandes e Francisco Anawake sobrevive de catar papelão, latinhas de alumínio e metal nas ruas de São Paulo. Apesar de fictícia, o filme poderia ser confundido com um documentário, pela forma como a realidade é retratada.
Com planos bem abertos a diretora mostra a cidade de São Paulo, o concreto, as grandes avenidas, os arranha-céus, dando ênfase a toda falta de individualidade e generalização característica de uma metrópole com cerca de 12 milhões de habitantes.
O realismo mostra um quadro da pobreza urbana de uma favela, espremida por grandes viadutos e avenidas largas, congestionamentos de veículos e de pessoas. Em uma situação de exploração do trabalho infantil, que começa com o próprio pai, várias situações de pequenas explorações são mostradas no decorrer do filme.
As relações comerciais ultrapassam as relações afetivas. Inclusive por parte das crianças que assimilam essas relações e passam a agir da mesma maneira. Uma das cenas que demonstra de maneira clara esta relação é quando constroem um joguinho de futebol com pregos e uma moeda e passam a comercializar a diversão alheia.
A cena mais marcante do filme, porém fica mesmo no seu final que mostra a favela em primeiro plano e os arranha-céus de vidro, da cidade mercantilista, do sistema onde impera o capital, contrastando com a miséria. O mais interessante é que as crianças estão vendendo latinhas e papelão para que o pai possa comprar tijolos. Fica aí a metáfora da “construção” da própria vida.
Esteticamente o filme apresenta na maioria das cenas uma grande poluição visual e sonora, em algumas delas dificultando inclusive o entendimento dos diálogos entre os personagens, também característica marcante de uma estética contra os padrões de beleza, pureza e satisfação defendida pela corrente clássica. Não há tão pouco nenhuma relação com a proporção, simetria e ordem, conceitos de Aristóteles para definir a estética.
O homem é colocado como o centro da trama, deixando claro o tom de materialismo da urbanidade, contradizendo também a estética medieval. Só há desproporções em tamanhos quando a diretora mostra planos abertos da cidade e do homem individual, esta relação sim, deixa claro que o homem é muito pequeno perante a metrópole.

“Jonathan”
Direção de Jordan Scott e Ridley Scott

Com uma linguagem diferenciada, o filme “Jonathan” foi considerado pelos críticos o episódio mais atípico. Um fotógrafo de guerra sofre uma crise depressiva pelos horrores das situações que retratou, principalmente com crianças, e entra numa fantasia em que revisita a si mesmo quando menino.
Em uma floresta da Inglaterra, o fotógrafo encontra-se com dois meninos e ele próprio volta a ser criança. O cenário do filme passa a ser de sonho, a temperatura fria, cenas com neblina e fotografias contra-luz reforçam este clima.
A cena que demarca o conflito do personagem é quando os três meninos brincam entre as árvores e chegam a uma trincheira, no meio de uma guerra, em um episódio de realismo fantástico, o menino passa a fotografar os horrores da guerra. Após o fim do tiroteio, retornam e o fotógrafo volta a ficar adulto.
O filme retrata o próprio conflito vivido por fotógrafos, documentaristas e jornalistas que buscam a estética de conflitos e injustiças sociais: até que ponto retratar apenas estes fatos ajuda na solução dos mesmos?
No caso do personagem, ele se sente impotente, passando a mensagem de que fotógrafos, cineastas e jornalistas também são cúmplices, parte do sistema, e não apenas testemunhas oculares.
No filme, que privilegia a linguagem poética, usando e abusando de metáforas, o mais poético é que começa e termina com citações. Em seu início cita o poeta inglês Willian Wordsworth: “Maravilhoso era, naquela manhã, estar vivo, mas ser jovem era o próprio paraíso”. Na última cena o próprio fotógrafo protagonista narra um pensamento que diz não se lembrar o autor: “a amizade multiplica o bem na vida e divide o mal”.
O filme é um bom exemplo da utilização do conceito de Platão, de que a aparência está ligada à moral e ao espiritual. Que a estética, a partir de conceitos de beleza, de harmonia, de simetria, pode elevar o homem a condição de rever seus próprios conceitos morais.

Considerações finais

Apesar de trabalhar diariamente com crianças e adolescentes em situação de risco social, conhecendo a realidade dura enfrentada por eles, analisar sob o aspecto estético o filme Crianças Invisíveis me revelou mais do que a problemática enfrentada no dia-a-dia dessas crianças e adolescentes.
A transformação do sistema econômico e, consequentemente do sistema social e cultural do homem se torna imprescindível na construção de uma sociedade que se pretende humana e, por extensão, erguida sob a luz da razão.
O filme mostra mais do que uma denúncia, um alerta: o ser humano, enquanto espécie, estará ameaçado se não souber cuidar das gerações que pretendem ser o futuro.

Anexo

Ficha técnica

Crianças Invisíveis : Itália/2005.
Título Original: All the Invisible Children.
Sete curtas metragens.
Episódios: Tanza (Tanza), Ciganos (Marjan), Crianças de Jesus na América (Jesus Children of America), Bilu e João (Bilu e João), Jonathan (Jonathan), Ciro (Ciro), Song Song e a Gatinha (Song Song & Little Mao). Duração: 116 minutos.
Direção: Mehdi Charef, Emir Kusturica , Spike Lee , Kátia Lund , Jordan Scott , Ridley Scott , Stefano Veneruso , John Woo.
Roteiro: Mehdi Charef, Spike Lee, Kátia Lund, Jordan Scott, Stefano Veneruso, Diego De Silva, Stribor Kusturica , Cinqué Lee, Joie Lee, Li Quiang.
Gênero: Drama.
Produção: Produção dos italianos Chiara Tilesi, Stefano Veneruso, Maria Grazia Cucinotta e Gaetano Daniele e os produtores associados Annarita Dell’Atte e Andrea Piedmonte.
A produção do filme teve apoio do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF). Também contou com o patrocínio do Ministério das Relações Exteriores italiano, com verbas revertidas para o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e Programa Mundial de Alimentos.

Bibliografia

Nunes, Benedito. Introdução à filosofia da arte. São Paulo, Editora Ática, 2000.
Textos: Estética no pensamento grego, Mas, o que é belo?, Princípios da estética Clássica e Princípios da Estética Medieval.

2 comentários:

Izzy Gomes disse...

hauahuahuahu... Espero que a gente vá pra Porto Alegre! é uma oportunidade única! ah o video do Lasier é impagável! Muito bacana esses documentários! Com realidades tão diferentes... Um assunto bem interessante! Tudo muito real...
Está muito bacana o teu site!!!
Abraços

toniandre disse...

BLZ Carlos .. to achando falta de um destaque para as poesias!